Impressões de migração do Windows para o Elementary OS (não-superusuários)

O título não é lá essas coisas, mas a ideia é bastante simples: decidi tentar migrar o workflow de computação dos meus pais para o Linux. Eles tipicamente utilizam Windows mas, com a exceção de um ou dois programas, todos os outros estão também disponíveis para o Linux.

Na primeira vez que tentei fazer isso, em meados de 2012 ou 2013, foi um fracasso. Em primeiro lugar, eu estava aprendendo sobre Linux e, em particular, sobre a enorme diversidade de distros que estavam disponíveis na época. Acabei optando pelo Ubuntu (…12.04 ou 12.10). Só que foi um desastre. Eu tinha o Ubuntu instalado no meu próprio Desktop, com a interface do Gnome 2 (heck, eu sequer sabia o nome da interface). Quando instalei o Ubuntu no PC dos meus pais, do nada apareceu outra interface. Depois eu descobriria que a interface em questão era o Unity, que eu (e eles) detestaram, mas eu fiquei bastante perdido para configurá-lo com o Gnome 2, com o qual eu estava acostumado.

Alguns programas eram esquisitos (para eles) — por exemplo, evolution como leitor de emails em vez do thunderbird / outlook. O dock na lateral esquerda também não era intuitivo. Nem mesmo o botão de desligar…enfim, esse setup chegou a durar algumas semanas, mas não deu certo, e acabaram voltando para o Windows. Enquanto isso, eu começaria a minha quest (parte da qual está documentada nesse blog) de testar dúzias de distros diferentes e formar novas opiniões.

Alguns anos depois, agora em 2017, decidi fazer uma nova tentativa. Há cerca de dois meses, instalei o Elementary OS e deletei o Windows (10) do PC deles (yeah, nada de dual boot, não dá pra fazer transformação de mentirinha: ou vai de uma vez só, ou não vai).

Algumas razões para escolher o Elementary OS em vez de zilhões de outras distros incluem:

  • não é o Ubuntu (yaaaaay!)
  • é beginner-friendly e user-friendly
  • o foco da distro está em usabilidade e design, e não em configurações ou linha de comando ou…
  • utiliza um package manager bastante standard (o apt). Aqui existem vantagens e desvantagens mas, nesse contexto, isso é uma vantagem, principalmente pela quantidade de pacotes já disponíveis no ecossistema deb;
  • o seu desktop environment padrão é o pantheon, que é realmente excelente, e bastante simples e polido para usuários novatos.
  • o plank (que é o seu dock) também é bastante refinado — já foi bem ruinzinho, mas hoje em dia está ótimo.

Baseado nessa lista, outras distros promissoras nessa categoria incluem o Linux Mint, o Zorin OS e o PC-BSD. Por que não o Zorin OS? Porque ninguém usa essa joça. Se fosse pra ser indie, então eu instalaria o Gentoo ou o Arch e faria uma customização massiva para deixá-los user-friendly, então tchau tchau pro Zorin.

O PC-BSD não foi considerado porque ele não é Linux, é um mero spin-off do FreeBSD, e os caras renomearam o projeto recentemente para TrueOS, eu não estou interessado em projetos que estão mudando de nome e FreeBSD para Desktop não é lá grande coisa.

Dito isso, o Linux Mint poderia ser uma segunda opção. O motivo de ter optado pelo Elementary OS é porque eu perdi a confiança no projeto ao longo dos anos (Linux Mint já foi uma das minhas distros principais), por uma série de motivos que não valem a pena ser mencionados aqui; enquanto que a minha confiança no Elementary OS só veio aumentando (eu cheguei a conhecer um dos fundadores no SCALE14x, você percebe que os caras têm uma enorme paixão pelo que fazem, é fantástico).

Vale dizer que o Elementary OS não é lá grande coisa, ele possui uma porção de bugzinhos, que são fáceis de ser notados à medida que você usa o sistema, mas ele é razoavelmente estável, suficientemente usável. Por exemplo, o pantheon-files, que é seu file manager padrão, possui um bug ridículo na ação de renomear pastas, ela só funciona se você apertar ENTER (clicar com o mouse fora da área de escrita implica em retornar ao nome original). Eu optei por instalar o Nautilus, que inclusive possui integração com o Dropbox, o que é um bônus.

O Geary, que agora é chamado de Pantheon Mail, também é buguento. Se você adicionar uma conta de email dele mas depois se arrepender e quiser deletá-la, você…errr, simplesmente não pode fazer isso. (de forma user-friendly, ao menos). Bom, o Thunderbird está aí para essas horas sombrias.

Existem vários bugzinhos nesse estilo, coisas que são inconvenientes e que claramente não deveriam estar ali, mas que estão. Aparentemente a comunidade está ciente disso, ao menos em alguns deles, então é provável que eles sejam consertados na release 1.0 (a release atual é a 0.4).

Se você superar os bugzinhos e não surtar com isso, podemos ir para a segunda etapa. Alguns tweaks e atitudes que se provaram boas incluem:

  • unattended-upgrades, apt-cron: para manter o sistema atualizado automaticamente;
  • redshift para manter a saúde dos olhos (ninguém liga pra esse negócio de espectro vermelho e azul, mas as pessoas realmente deveriam se importar mais com isso, especialmente nesses tempos atuais em que o uso de dispositivos eletrônicos é massivo);
  • dropbox para backups (infelizmente nenhum cliente do google drive está disponível gratuitamente para Linux, até hoje), com integração com o Nautilus;
  • VMWare Player para manter um Windows “de emergência” para os programas que não estão disponíveis para Linux;
  • zramswap e diminuição do valor de swappiness do kernel para dar uma aliviada no disco rígido. O valor default é 60; eu diminuí para ~20–30. É uma faixa de valores razoável para um desktop com 4GB de RAM;
  • preload para carregar programas mais rapidamente na inicialização;
  • indicator de velocidade de rede no wingpanel;
  • VLC como reprodutor padrão de vídeos;
  • não instalar o vim. Ele insiste em ser o visualizador de arquivos padrão para um monte de formatos. Até mesmo o pacote vim-nox atrapalha.
  • desabilitar serviços desnecessários no systemd (systemctl list-unit-files; systemctl disable <unit>). Sim, a release atual do elementary OS usa o systemd.

Também convém instalar pacotes relacionados a NTFS e V-FAT, para pen-drives. Acho que um dos pacotes se chama dosfstools ou algo similar.

Tenho rodado esse setup há dois meses e ele tem se mostrado bem estável e razoável. Estou satisfeito. E, o melhor de tudo: a manutenção é mínima, não precisa de anti-vírus, e é rápido. Trava muito pouco, se comparado com o Windows 10. Todos os pacotes estão sendo gerenciados pelo apt: não há nenhum software instalado localmente, por fora. Isso diminui drasticamente qualquer necessidade de manutenção. Todos os scripts que estão rodando automaticamente (que não foram mencionados aqui) estão sendo gerenciados pelo systemd (timers!) e/ou pelo anacron.

Alguns projetos futuros incluem:

  • gerenciar e configurar o sistema com o saltstack;
  • minerar bitcoin;
  • tentar utilizar o wine em vez do VMWare para os programas que não estão disponíveis para Linux;
  • adicionar um firewall ecochato;
  • backups automáticos (btrfs snapshots? Periodic rsync?).
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