[Opinião] Posts descartáveis

[0] Eu demorei muito a criar um perfil no Facebook, fui um dos últimos da minha turma do ensino médio a fazer isso. Isso foi na época que o filme ‘A rede social’ foi lançado, filme esse que popularizou bastante a rede na época. Smartphones nem eram tão comuns, mas alguns anos depois se tornariam cada vez mais acessíveis.

Vivendo durante quase 4 anos nessa rede social, eu já mudei a minha opinião e visão em relação a ela várias vezes. Nunca a expressei muito bem em um único post, mas pelo menos já fiz menção a várias impressões discretas que tenho dela (exemplos: [1] e [2]). Na verdade, esse post não se trata apenas sobre o Facebook, é sobre redes sociais em geral, mas o Facebook vai ser o exemplo principal daqui.

Pois bem, aí o tempo foi se passando, e uma hora inventaram o conceito de ‘news feed’ e ‘timeline’. Hoje parece até trivial e que tudo isso existiu sempre, mas antigamente, desde meados de Orkut, basicamente a gente visualizava tudo — ou quase tudo — que os nossos amigos postavam. Não havia algoritmos “inteligentes” que tentavam otimizar o conteúdo de acordo com o perfil do usuário, ou pelo menos eles não eram tão bons na época. Em muitas redes sequer havia o conceito de unfollow, ou pelo menos eles eram ainda bem primitivos. (Esses “ou pelo menos” são importantes pra não deixar o texto impreciso, mas os detalhes não são muito importantes)

Bem, voltando à história da ‘timeline’: é o terror. Você pode entrar no perfil de qualquer amigo seu e descobrir o que ele postou (por exemplo) no dia 7 de março de 2012 [3]. Com um pouco mais de esforço, você pode clicar no botão de “mapa” e descobrir todos os lugares que ele visitou (pelo menos os que ele compartilhou), com quem ele estava e até mesmo estimar quanto tempo ele ficou lá [4]. Quem sabe você ainda descobre quando esse seu amigo começou e/ou terminou todos os relacionamentos dele. Eu falo “amigo” de forma genérica, tanto faz o gênero, de qualquer modo.

Indo mais a fundo, é possível descobrir muito mais informações sobre as pessoas. Em particular, os links que são compartilhados em dado momento podem dizer muito sobre você [5]. Agora some todas essas informações espalhadas em todas as contas de redes sociais que você (potencialmente) tem: Twitter, Instagram, Facebook, etc. Essas três aparentemente hoje são as mais comuns, mas ainda existem outras várias. Foursquare é uma das coisas que eu menos consigo entender, uma rede social feita pra você gritar pro mundo onde você está, é o cúmulo da privacidade, mas são moedas de ouro que algumas pessoas que trabalham com data science e targeted advertising podem catar.

So what?

Dados os parágrafos anteriores, apenas com o propósito de criar uma pequena introdução ao contexto do assunto, agora eu questiono: se você fixar uma única pessoa, ela está gerando dados o tempo inteiro, em várias redes diferentes, dados esses que vão ficar armazenados provavelmente quase que pra sempre. Existem dois pontos que eu considero problemáticos aqui: (1) como esses dados poderão ser usados depois — e quem detém acesso a eles e (2) esses dados realmente precisam ficar expostos o tempo todo para o mundo e/ou seus contatos?

O ponto (1) não é o foco desse post, mas ele pode ser resumido com uma palavra: privacidade. Hoje em dia não dá para fugir disso a não ser boicotando completamente algumas redes sociais; isto é, você tem que adotar uma postura parecida com a do Richard Stallman e ser extremamente radical com relação ao seus dados. Ainda assim, isso não quer dizer nada, porque as redes que você boicota podem (e provavelmente estão) estar coletando alguns dados de você sem mesmo o seu consentimento e/ou conhecimento. Se você quiser ler mais sobre isso, saia desse site e leia as páginas do site do Stallman. Em particular, [6], [7], [8] e [9].

Minha opinião resumida sobre (1) é: se você não quer que dada informação sua fique permanentemente guardada por uma dessas empresas, então comece não postando essa informação em lugar nenhum — de verdade, não se trata nem de apenas postar; a sua simples interação com o seu browser já coleta muitos dados sobre você. O aplicativo do Facebook para Android coleta uma informação absurda de dados sobre você (exemplo: [10]). Caso você poste algo, trate de não se arrepender. Talvez você já tenha ouvido falar de pessoas que foram presas por terem postado um único tweet com algum conteúdo ora ofensivo ora enganoso (sim, apenas uma mentira). E não, não adianta apagar depois só pra dizer que o tweet nunca existiu. Eu vou ficar devendo a fonte dessas últimas, mas eu vejo notícias sobre isso de forma razoavelmente frequente. Enfim, sem muito mimimi nessa parte: quem escolhe o que quer usar é você [11].

Posts descartáveis

Finalmente: já que (1) é inevitável e os seus dados vão ser coletados por empresas de qualquer forma, o que dizer sobre (2), os dados que estão disponíveis no presente para uma pessoa genérica, a qual pode ou não ser um contato seu em uma rede social?

Em outras palavras: será que é absolutamente necessário que a informação que você foi em dada festa e/ou evento em algum dia de novembro de 2010 [12] fique disponível para um novo contato que você acabou de adicionar , ou mesmo um contato que você já tem, ou mesmo uma pessoa que nem seu contato é? E que tal o fato de você ter apoiado dado partido político há alguns anos atrás? Ou sei lá, eu não consigo pensar em exemplos melhores que esses porque eu procuro cortar o mal pela raiz em (1) e sequer prover alguns tipos de informação (não necessariamente as dos exemplos que dei)  in the first place.

Mas, aqui chegamos à parte mais importante desse post: sobre o tempo de vida de um dado post/tweet/foto/mensagem/localização/bookmark ou do elemento básico de compartilhamento de dada rede social. POR DEFAULT, o tempo é quase infinito: o que você postar hoje vai ficar disponível pra todo mundo ver durante muito muito tempo. Meu ponto é: será que isso é realmente necessário? Será que não seria interessante que os usuários pudessem controlar o tempo de vida de suas postagens? Por exemplo, postando algo com uma data de expiração de (digamos) 30 dias, quando esse conteúdo seria removido.

Note que, por (1), o conteúdo pode até ser removido para outros usuários não verem, mas a empresa que detém os dados provavelmente ainda terá esse conteúdo; o que acontece, na real, é que existe uma espécie de booleano que indica se dado post foi removido ou não por um usuário, mas o post continua existindo. Muita gente não sabe disso, e acha que quando deleta uma foto que postou, que essa foto foi realmente deletada. Não, usualmente nada é deletado: uma vez adquirido o dado, ele vai existir para a empresa de forma permanente, porque depois esse dado poderá ser utilizado para fazer propaganda específica para você, baseado nos seus interesses, ou mesmo com outros usos que você (e nem eu) sabe(mos).

O ponto dos “posts descartáveis” não é que eles sumam completamente; mas é, simplesmente, que eles sumam da visão de outros usuários. Eu não conheço nenhuma rede social que faz isso, infelizmente. Mas existem alguns serviços/aplicativos que oferecem coisas do tipo, como o Snapchat e o Secret. Eu particularmente não uso nenhum deles por uma questão de interesse pessoal apenas, mas se eu precisasse ou sentisse vontade de compartilhar fotos o tempo todo ou de postar meus pensamentos de forma anônima, respectivamente, então eu iria adorá-los.

O questionamento — melhor, a reflexão — é: por que não fazer isso também em redes sociais? Infelizmente eu acho que as pessoas se expõem demais, mas boa parte delas não tem consciência disso. Assim, sobre as que têm consciência e que querem de fato fazer isso: whatever, go ahead. A princípio não existe nada de mal em querer que seus posts {s,est}ejam permanentes. Porém, o problema é que se vocẽ quiser o contrário, isso atualmente não é possível, ao menos não de forma automática. Existem basicamente duas opções: ou você boicota e decide não usar dada rede social e ponto final; ou então você precisa achar uma forma de deletar (por exemplo, semanal ou mensalmente) os seus posts sem se estressar com isso.

Eu sou super adepto a essa prática, e acredito que a maior parte do conteúdo que é compartilhado hoje em dia não precisa[ria] ficar exposto depois de um certo tempo de compartilhamento. Note: não é uma questão de censura ou de não querer compartilhar certos tipos de conteúdo: na verdade, se trata de compartilhar as mesmas coisas que você compartilharia de qualquer forma, só que você deseja que elas sumam depois de um tempo.

Dito isso, eis uma pequena análise de algumas redes:

  • Twitter: não possui opção de posts descartáveis, mas é relativamente fácil deletar alguns dos seus tweets depois de algum tempo, seja usando um serviço como o http://www.tweetdelete.net/ ou mesmo rodando algum script que utilize a sua API (exemplo: [14]).
  • Facebook: é bem chato deletar posts antigos aqui. Acho que a princípio só manualmente. Deve ser possível fazer isso com a sua API, mas é menos fácil que a do Twitter, até porque um “post” no Facebook podem ser várias coisas: evento, post em grupo, etc. Aqui só seria interessante deletar os posts da própria timeline.
  • WhatsApp/Telegram: pelo caráter mensageiro dos mesmos, é tranquilo. Novas conversas escondem as anteriores. Não é bem um delete, mas já serve para esse propósito, a meu ver.
  • Snapchat: permite isso por design. Yay!

Enfim, é isso. Só pra fechar, vale a pena dizer que essa visão não precisa ser binária. Você pode adotar um procedimento misto entre o que é descartável e o que não é; e, além disso, pode escolher algumas plataformas para não serem descartáveis. Por exemplo, o meu blog eu trato como algo “não descartável”: praticamente não deleto nenhum post que faço — os poucos que deletei até hoje foram mais porque eram específicos demais (em relação ao tempo).

Por um futuro com posts (opcionalmente) descartáveis =P

Obrigado por ler [15].

E, caramba, se você chegou até aqui: você tem alguma opinião sobre o assunto? Em particular, você ligaria o botão de “torne esse post descartável” em dada rede social se essa opção existisse? Comente, se julgar necessário.

Footnotes

  • [0]: demorei muito pra conseguir escrever esse post; só saiu na terceira tentativa (com talvez um mês entre cada tentativa)
  • [1]: Thoughts on Facebook
  • [2]: Thoughts on Instagram
  • [3] o que você postou nesse dia? Apesar de tudo, juro que escolhi essa data aleatoriamente :p
  • [4]: há quem tire fotos quando chega e depois quando sai de um lugar, não é
  • [5]: sem dúvidas, quase 2 anos escrevendo nesse espaço, às vezes eu recebo um comentário aleatório de um post que fiz alguns meses. Imagina agora receber um reply em um tweet antigo ou um comentário em uma foto relativamente antiga sua
  • [6]: https://stallman.org/facebook.html
  • [7]: https://stallman.org/apple.html
  • [8]: https://stallman.org/amazon.html
  • [9]: https://stallman.org/skype.html
  • [10]: http://www.techrepublic.com/article/misplaced-fear-about-facebook-messenger-for-android/
  • [11]: a princípio isso não é bem verdade, o network effect faz com que você acabe usando a plataforma onde a maior parte dos seus contatos está, ainda que você não queira fazer isso
  • [12]: sim, essa data também é chutada! A terceira não vai ser [13]…
  • [13]: não, não tente procurar uma terceira data porque ela não vai aparecer :/
  • [14]: https://gist.github.com/robinsloan/3688616
  • [15]: faz tempo que eu não escrevia um post do tipo, de opinião, e em forma de um “mini essay”. É relativamente custoso tirar um tempo para resumir bem os argumentos que você vai usar e a forma como você vai escrever esse tipo de post. Mas enfim, eu espero continuar a escrever textos assim de vez em quando, me parece um bom exercício mental.
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[Opinião] Posts descartáveis

Privacidade nas Redes Sociais – Parte I

Ah, aparentemente essa é uma ótima hora para escrever esse texto (em tempos de protestos e compartilhamento excessivo de informações). O que segue é uma pequena compilação de recomendações minhas para você não se expor demais nas redes sociais. E, principalmente, não fazer besteiras. Despertar a consciência alheia um pouquinho. Acho que isso vindo do meu ponto de vista é um ótimo exemplo, porque eu já fui de ocultar tudo meu na web o máximo possível, de forma extremamente radical (OK, aparentemente não estou mais fazendo isso, senão não teria um blog nem conectaria twitter ao facebook).

Estamos de olho.

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Privacidade nas Redes Sociais – Parte I